sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Júnior e o lagarto


           Seu animal de estimação era um lagarto grande, cinza, do tamanho de um cachorro de pequeno porte. Maior, se contasse a cauda comprida. Júnior dizia que era o seu pequeno dinossauro.

            O rapaz montava armadilhas ao redor da casa para capturar vivos os ratos e os outros animais que apareciam. Gostava de coloca-los na mesma caixa com o lagarto e ficar assistindo. Enquanto o intruso caminhava desconfiado pelo lugar estranho, o lagarto esticava a língua bífida, farejando através dela a novidade. Então avançava. A vítima era abocanhada e sacudida violentamente de um lado para o outro. Caso conseguisse se desvencilhar e fugir, o lagarto a capturava novamente e repetia o processo. O embate não durava mais de cinco minutos, e sempre terminava com o lagarto alimentado e satisfeito. Era um bom predador. Fascinado, Júnior chegava a elogiar o amigo: “Bom garoto”. 

Num domingo de manhã, Júnior encontrou o lagarto morto. Metade do corpo havia sido devorada, as vísceras ainda quentes expostas no chão da sala.

Júnior recolheu o corpo delicadamente. Levou-o para o quarto e deitou-se com ele na cama, em prantos. Ficaram assim até anoitecer, na escuridão da despedida, quando o silêncio foi interrompido por um crescente rumor. Júnior levantou a cabeça, desconfiado. Concentrou-se no ruído e, quando enfim identificou-lhe a origem, se viu tomado pelo horror.

Vindo de todos os lados, no chão, era possível ouvir nitidamente o som de um milhão de ratos que se amontoavam por cada canto da casa, subindo pelos móveis e devorando o que encontrassem pela frente. Quando sentiu que começavam a subir pelos pés da cama, tudo o que Júnior conseguiu fazer foi abraçar o lagarto morto e, incapaz de pôr para fora o pânico que o estrangulava, gemer.
 


quarta-feira, 27 de setembro de 2017

THE ADVERSARY



"You must know your life is in danger. Your other side found you, you both have been face to face, it almost got what it wants. What scares me the most, however, is not the degree of cruelty he carries. This doesn't surprise me. There’s something worse about this person, something which walks on his side and guides his steps as the night progresses. And that person is not alone. Thus, you have to worry about his partner".



Com tradução de Fabíola Lowenthal e capa de Rebecca Frassetto, a edição em inglês de O ADVERSÁRIO já está disponível, nas versões impressa e digital, no site da Amazon. Você pode conferir aqui.


 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

CICLOTIMIA na Vacatussa


CICLOTIMIA é um conto que escrevi há tempos e foi publicado na coluna que o poeta, ensaísta, crítico e tradutor Claudio Willer então mantinha na revista Cult. Agora, o conto está saindo também na revista impressa Vacatussa, após ser selecionado no processo de publicação promovido no início do ano pela revista. Editada pelo jornalista Thiago Corrêa, a Vacatussa pode ser adquirida no site http://www.vacatussa.com/ 


Caso você prefira fazer o download da revista, o endereço é este.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Bem vindo

Obrigado a você, de Southend, que tem visitado o blog d'O ADVERSÁRIO. Tomara que esteja gostando.


segunda-feira, 28 de agosto de 2017

O TERRAÇO E A CAVERNA na Leitura Reversa

Responsável por este booktrailer, a sul-mato-grossense Reversa Web Radio acaba de lançar uma revista literária, destinada à divulgação de autores nacionais, cultura e arte. Com o nome Leitura Reversa, a luxuosa publicação (tamanho A4, papel couché) traz, além de matérias sobre Edgar Alan Poe, Adriana Calcanhoto e dicas de livros, uma resenha sobre O TERRAÇO E A CAVERNA, escrita por Alexandre Souza. Que, entre outras coisas, disse o seguinte sobre o romance:


"A leitura é viciante. Você não consegue parar de se envolver com os pensamentos, conclusões, reflexões (...) os personagens são cativantes por nos levar aos seus debates."

Se você se interessou, o endereço para compra da Leitura Reversa é: http://radioreversa.com/pagina/207775/nossa-revista




sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O TERRAÇO E A CAVERNA no Portão Literário

A curitibana Ale Dossena é, nas palavras dela mesma, "administradora, arteira, leitora e escritora". Aprendeu a ler aos cinco anos com a mãe, ao pé do fogão a lenha, e em 2012 publicou seu primeiro livro de poesias. Agora ela está cursando Licenciatura em Letras, além de manter o blog/canal Portão Literário, onde fala, com bastante propriedade, de livros. Ale também leu O TERRAÇO E A CAVERNA, e postou sua opinião sobre o romance no vídeo abaixo.

 



terça-feira, 22 de agosto de 2017

O TERRAÇO E A CAVERNA no LiteraTamy


Tamy Ghannam é a administradora do site LiteraTamy, espaço voltado para o compartilhamento de impressões literárias. É lá que a jovem (tem só 20 anos) Tamy se dedica à sua paixão, a literatura. E o faz com maestria. Estudante de Letras na USP, Tamy possui um texto surpreendentemente sóbrio e elegante, e também escreveu sobre O TERRAÇO E A CAVERNA. Confira:



"Escrito com sensibilidade e lucidez, explorando aspectos sociais e psicológicos por meio de metáforas e descrições realistas, O terraço e a caverna propõe ao leitor um exercício de pensar o outro, de deixar a caverna particular para explorar os terrenos desconhecidos do próximo, de modo a redecorar a própria subjetividade."


A íntegra da resenha pode ser lida aqui.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Feia



“Deixa eu ver o teu rosto”, ele pediu.
Tentava trazê-la para fora da sombra. Tentava iluminar a face pela qual já se considerava apaixonado, embora só a tivesse visto através de fotos na internet.
Ela, porém, não se moveu.
“Vem”, ele insistiu, com a impaciência própria dos jovens. Puxou-a, e de tão entusiasmado acabou abrindo mão da delicadeza.
Então ela cedeu. Involuntariamente. Bruscamente. Quatro, cinco passos e estavam os dois na luz.
Ele recuou. Recuou e soltou-lhe as mãos, achando-as agora frias e enrugadas. Ao olhar para ela, o susto foi maior do que a elegância, e naquele instante não havia nada que o fizesse calar o grito.
Quis dizer que ela era feia. Mas o adjetivo lhe pareceu insuficiente.
“O que é você?”, ele perguntou, cheio de aspereza e indignação, enquanto ela retornava humilhada para a sombra. “O que é você e o que pensa que eu sou?”
Após o susto, veio a raiva. Sentiu que havia sido enganado. Mais do que isso, agredido. Tanto que os punhos imediatamente se fecharam, o sangue lhe subiu à cabeça e ele a esmurrou.

*

Dois anos depois, estavam casados e ela esperava o segundo filho. Os amigos, os que o conheciam bem, viviam a se perguntar o que possuía aquela mulher que conseguira conquista-lo. Logo ele, que só saía com modelos de capas de revista. Ela havia conseguido um milagre.

Ele quase não falava mais. Um meio sorriso permanentemente estampado no rosto e um olhar perdido marcariam a sua expressão dali por diante.
Para todos, um sinal de felicidade. Quem conseguisse passar mais tempo com ele, no entanto, não deixaria de notar os pequenos tremores, no rosto e no corpo.
Também não passaria em branco a completa incapacidade de fechar as mãos.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A nova capa de O ADVERSÁRIO

 

Esta é a nova capa de O ADVERSÁRIO. Presente da caríssima Rebecca Frassetto, o livro ganhou também uma nova edição, que você pode conferir no Portal dos Livreiros ou diretamente com o autor, pelo email oadversario.romance@gmail.com. Vai deixar o Casemiro esperando?



 

terça-feira, 27 de junho de 2017

O TERRAÇO E A CAVERNA - Booktrailer

Realizado pela equipe da Reversa Web Rádio, o booktrailer de O TERRAÇO E A CAVERNA já está disponível no YouTube. Confira, divulgue.



segunda-feira, 26 de junho de 2017

O TERRAÇO E A CAVERNA na Arca Literária


Capitaneado pela baiana Ceiça Carvalho, o site Arca Literária é mais um local voltado à propagação da cultura literária que publicou uma resenha sobre O TERRAÇO E A CAVERNA. Quem escreveu a resenha foi o colaborador do site Renato Neres que, embora não tenha gostado do final, elogiou o livro, como pode ser visto em suas próprias palavras:

Foi uma leitura gratificante. Gostosa. Em certos momentos eu fui tomado pela emoção. (...) É uma narrativa belíssima.




quinta-feira, 22 de junho de 2017

A velha doceira


Todos os anos, em 26 de setembro, dia de Cosme e Damião, ela enchia a grande sacola preta com os doces preparados na véspera.

            Então ela saía pelas ruas e as crianças a cercavam.

            Pequenos selvagens. Mini monstros que tomavam de suas mãos de velha o pacotinho com cocada, suspiro, brigadeiro e cajuzinho, e corriam afoitos, sem nem dizer obrigado.

           Diziam que só no fim da tarde ela voltava para casa. Tarefa cumprida, a grande sacola preta vazia. Então, exausta e suada, a velha desabava no sofá da pequena sala e, olhando a sacola que ainda mantinha nas mãos, ria.

            Passados dois dias, as crianças começavam a adoecer.

        Algumas   eram levadas às emergências dos hospitais. Outras, não sobreviviam tanto tempo. 

            No meio da revolta e da tristeza da sociedade, sempre havia alguém que desconfiava dos doces. E ia investigar-lhes a procedência. Quem conseguia, porém, chegar até a casa da velha doceira, encontrava apenas um imóvel vazio, triste, abandonado para a poeira e o silêncio. Como se daquele jeito estivesse desde sempre.

            Eu vi a velha uma vez, quando criança, num dia de Cosme e Damião. Não peguei os pacotinhos fatais, por causa de uma dor de barriga que levara minha mãe a me proibir de comer doces por um tempo. Escapei de morrer, mas até hoje essa senhora diabólica me aparece à noite, frequentando sinuosa os meus pesadelos.